Vida - Instituto Lotta

Vida

Na viagem de navio retornando ao Brasil em companhia de Portinari, em 1940, Lotta conhece Mary Stearns Morse,  com seu corpo de balé a caminho de uma apresentação em Buenos Aires, encanta-se por sua história de vida e determinação de independência.  De volta aos Estados Unidos em 1941, Lotta resolve fixar residência em Nova York, com o objetivo de se aprofundar na dinâmica do Museu de Arte Moderna daquela cidade. Lotta tinha ficado fascinada com as atividades de difusão cultural do Museu. A partir daí Lotta e Mary se aproximam cada vez mais. Mary como exímia empreendedora planejava a criação no Brasil da “Artistas Brasileiros Reunidos”, sonho de Lotta.

Começavam também a imaginar um condomínio requintado, a partir da doação que Dona Adélia tinha feito em vida de parte da Fazenda Samambaia, onde compartilhariam a vizinhança com pessoas cultas e modernas, fazendo daquele lugar um oásis para se morar.

Em 1942, ainda em Nova York, Mary apresenta para Lotta a escritora americana, sua amiga e conterrânea, Elizabeth Bishop, com a qual viveriam mais tarde um triângulo amoroso por muitos anos.

De volta ao Brasil, em 1942, Lotta e Mary já viviam uma nova realidade, uma nova família se formara.

A burocracia para a implementação do Empreendimento Imobiliário e o exílio de Portinari no Uruguai afasta Lotta temporariamente das Artes.

Quatro anos se passaram até que Lotta e Mary tivessem transformado o projeto do condomínio em realidade próspera.

Livre, culta, rica, intelectual não-esquerdista com sofisticação européia e simpatia norte-americana, uma postura pessoal irreverente, amiga pessoal dos principais intelectuais brasileiros da época, Lotta se volta ao mundo das artes e em 1948 a “Artistas Brasileiros Reunidos” se concretiza com a fundação, junto com um grupo que incluía Eva Klabin e o empresário Raymundo Ottoni de Castro Maya, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, incentivada por seus amigos Lina Bo e Pietro Maria Bardi,  auxilia na constituição de seu acervo e, sobretudo, no contato com Happy e Nelson Rockfeller, fundamentais no processo inicial de criação do museu.

No ano anterior em São Paulo, Pietro Maria Bardi haviam desenvolvido um método que permitiria o financiamento privado para a aquisição de obras de grande relevância artística no então combalido mercado de arte internacional, que possibilitou a criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo, inspirado nos moldes do Museu de Arte Moderna de Nova York.

Morando em Petrópolis, em Samambaia, na casa projetada por seu amigo arquiteto Carlos Leão, o Caloca, Lotta e Mary planejavam a construção de uma casa maior e definitiva, que pudessem recepcionar de modo mais acolhedor seus muitos, mas seletos amigos.

Nas estadias no apartamento 1101, uma cobertura do número 5, da Rua Antônio Vieira, no Leme, com decoração reminiscente da visita do amigo Alexander Calder ao Brasil, em 1948, elas faziam os contatos sociais necessários a divulgação do alto nível do empreendimento de samambaia e Lotta aproveitava para participar do desenrolar do registro como sociedade civil do MAM Rio, que só veio a se realizar definitivamente em 1951.

 

O Condomínio de Luxo

 


Casa de Campo de Guilherme Brandi
Arquiteto Sérgio Wladimir Bernardes
1952

 

Casa de Campo de Lauro Souza Carvalho
Arquiteto Henrique Mindlin
1955

 

 

Casa de Campo de Lotta de Macedo Soares
Arquiteto Sérgio Wladimir Bernardes
1954

 

 

Lotta, sua anfitriã, a conduziu pelas obras da casa de Samambaia em construção e, com a desenvoltura de alguém que conhecia as medidas exatas explicava os projetos ainda por serem construídos, com a criatividade de uma especialista em artes, descrevia os vários planos da obra. Bishop ficou imediatamente fascinada, principalmente com as mãos lindas de Lotta que gesticulavam enquanto falava, com a inteligência daquela criatura tão cheia de energia.

“O que tem de fauna e flora aqui parece um sonho. Chega a ser difícil de acreditar. Além de uma profusão de montanhas nada práticas, e nuvens que entram e saem pela janela do quarto…”Elizabeth Bishop

Nos primeiros dias no alto da serra, Bishop deu duas mordidas muito azedas em um caju e a fruta tropical provocou-lhe uma terrível alergia. Os cuidados que os brasileiros tiveram com ela, a atenção de Lotta à sua saúde, levando-a ao Rio de Janeiro para ser medicada, fizeram com que imediatamente se afeiçoasse aos amigos, aos funcionários da casa e, sobretudo, aos carinhos da atenciosa anfitriã. Entre comprimidos e injeções, rosto inchado, orelhas vermelhas e doloridas, ataques de asma, alergia por todo o corpo, ocorre a declaração de amor. Lotta lhe prometera certos cuidados que ela jamais conhecera: construir um estúdio próximo da casa para ela se dedicar à sua poesia; carinho e segurança, o que a levou a dizer aos seus correspondentes: Foi a primeira vez que alguém me ofereceu um lar, tanta coisa. O gesto de Lotta para mim representou absolutamente tudo.

Lotta pediu para que Bishop ficasse no Brasil em 20 de dezembro de 1951, data que estava marcada no anel que ambas usavam.

“O estúdio está quase pronto, e estou tão emocionada que sonho com ele toda noite […] Garanto que vou entrar nele e ficar chorando de felicidade semanas a fio, sem conseguir escrever nada.” Elizabeth Bishop

O estúdio foi construído de maneira que ela pudesse se dedicar com tranqüilidade à sua poesia. Em um cômodo único no alto de uma pedra, à esquerda da casa, com uma cascata ao lado. Localizava-se em um terreno enorme e muito íngreme, pontilhado de granito, do qual se descortinava uma bela vista dos picos do outro lado do vale. No seu interior, a vista era bloqueada por uma parede, para garantir a concentração no trabalho.

A construção visava preservar o processo criativo, de forma que as visitas da casa e suas atividades ficavam distantes geograficamente, para não incomodar a concentração da escritora. As descrições desse lugar, aliadas às transformações na sua escrita, parecem fundamentais, à medida que, em menos de um ano no país, ela escreve uma série de contos autobiográficos e inicia alguns poemas, como Banho de Xampu, considerado uma ode ao idílio amoroso, uma homenagem à amada Lotta, um dos momentos mais altos da sua arte.

 

“Este lugar é maravilhoso, Pearl. Eu gasto tempo demais olhando para ele em vez de trabalhar. Só espero que você não tenha que chegar  aos 42 para se sentir verdadeiramente em casa.” Elizabeth Bishop

 

Finalmente parecia ter encontrado no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, na companhia de Lotta e na casa da serra de Petrópolis, algo que sempre procurara: uma espécie de paz interior, de alívio para as pressões sociais, um lugar que pode considerar seu e que a fez se sentir verdadeiramente em casa.

Elizabeth Bishop foi a vencedora do Prêmio Pulitzer na categoria Poesia no ano de 1956 pelo trabalho no livro “Poemas – Norte e Sul”. Em 1952 sua amiga e mentora Marianne Moore tinha sido contemplada na mesma categoria com o livro “Collected Poems”.

Elizabeth recebeu o Prêmio em uma solenidade na Embaixada dos Estados Unidos em companhia de Lotta e Mary, suas companheiras.

Madalena Santos Reinbolt, Floresta, 1969, Tapeçaria. Coleção Mary Morse.

A afetividade que faltou à Lotta na infância e na adolescência se multiplicou na idade adulta, distribuindo perdulariamente entre todos aqueles que lhe apresentavam trabalhos na esperança de obter algum auxilio que lhe pudesse desenvolver dotes para seguir o seu talento artístico.

Foi o caso do menino Kilso e de Madalena Santos Reinbolt, cozinheira na casa da Samambaia, que acabou tendo seu talento reconhecido por críticos de arte do nível da Lélia Coelho Frota, que elevou suas humildes tapeçarias à categoria de obra de arte.

 

 

Com as obras da Casa de Samambaia concluídas em 1957, elas foram passar seis meses em Nova York. Na volta, Lotta teve outra vez a sensação de não estar fazendo nada, de não se dedicar a uma atividade que pudesse ser vista e valorizada. Queria mais, ousar em algo que ficasse marcado como seu, o qual pudesse aplicar seus conhecimentos e ser reconhecida.
No final de 1960, Carlos Lacerda, seu vizinho em Samambaia e amigo de longa data, venceu as eleições para o governo do recém criado Estado da Guanabara. Com a mudança da capital brasileira do Rio de Janeiro para Brasília, em abril de 1960. O novo Governador pede então à amiga que colabore com ele no Governo, que escolha uma atividade na qual usasse seus talentos que ele tanto admirava.

Depois de muito divagar, com a ajuda do amigo Oscar Simon, ela escolheu o entulho que ficava na frente do apartamento do Governador. Uma área que vinha sendo aterrada pelo governo anterior, com o desmonte do Morro Santo Antônio, objetivando a dar continuidade á ligação da Avenida Norte-Sul – atual Avenida Chile – com a Radial Sul, que daria uma solução ao aumento constante do número de veículos na cidade.