Pensamento - Instituto Lotta

Pensamento

Tendo sido criada na elite intelectual carioca, Lotta, se envolveu logo cedo com a arte da ostentação e da política. Contudo, ao passar sua adolescência em um colégio para moças de posse na França, revoltou-se a tamanha imposição. Retornando ao Brasil, já de maior idade, tratou logo de por em prática novos costumes, foi morar em uma república com amigos, onde entre outras coisas foi apresentada a uma arte popular, extravagante e rebelde. Forjando-se ali mais uma modernista. Fiel a causa, dedicou-se a aprender pintura, a ler sobre arquitetura, a promover encontros com artistas brasileiros, a fazer uma faculdade alternativa.

Encantada com a arte modernista, Lotta, dividindo um apartamento de três andares na Lagoa com Ruth Berensdof e os irmãos Alfredo e Carlos Lage, começa a ter aulas de arquitetura com Carlos Leão, em 1935 entra para a turma inaugural do curso de pintura, ministrado por Cândido Portinari, no Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, no Largo do Machado, recém fundada por Anísio Teixeira e se muda para o seu próprio apartamento na Rua Xavier da Silveira, em Copacabana. No curso de pintura tem um relacionamento diário com Enrico Bianco, Burle Marx, além de vários artistas e intelectuais.

Em julho de 1938, Mário de Andrade assume como professor-catedrático de Filosofia e História da Arte da Universidade do Distrito Federal, na qual ocupa ainda o cargo de diretor do Instituto de Artes.

Entusiasmada com a famosa corredora francesa de carros, ex-dançarina de cassino e ex-acrobata Mariette Hélène Delangle, a “Hellé-Nice” , que veio competir no Brasil em 1936, Lotta começa a participar das corridas do Circuito da Gávea e já é com seu automóvel campeã em multas de trânsito em 1937.

Turma de pintura na Universidade do Distrito Federal - 1935Universidade do Distrito Federal – 1ª Turma do Curso de Pintura ministrado por Cândido Portinari – 1938
Na foto: Lotta aparece agachada na frente, a esquerda; Portinari sentado ao centro; logo atras, de terno escuro, temos Roberto Burle Marx; em pé, ao centro, Mário de Andrade; entre outros.

Em janeiro de 1939 Lotta recebe um duro golpe ao se deparar com a Universidade fechada, por determinação do Ministério da Educação e Saúde. Ao chegar para a aula não conseguiu entrar assim como seus colegas. Os alunos se reuniram e tentaram protestar para tentar demover a determinação e assim reabrir a universidade, mas seus esforços de negociação foram em vão a instituição estava extinta.
Portinari ainda tenta manter o curso na Escola Nacional de Belas Artes, pede ao ministro da educação Gustavo Capanema, sua ajuda. Ainda de acordo como conta Maria Portinari, alguns alunos pertenciam a elite carioca tais como Lotta, Rosalina Leão. Oscar Simon, Jorginho Guinle, entre outros. Com o fechamento da Universidade, Portinari convida seus alunos remanescentes para continuarem o curso em sua casa no Leme.

Quando Portinari foi convidado a pintar o mural do Palácio do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Capanema, marco da arquitetura modernista, ele convidou Lotta para participar do grupo que chefiaria. Como conta Rosalina Leão que também participou do feito. Lá tiveram a oportunidade de compartilha idéias com Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Ernani Vasconcellos e Jorge Moreira.

Durante o curso de pintura na Universidade do Distrito Federal, onde era uma aluna assídua e com presença marcante perante os professores, o então diretor, Mário de Andrade incumbe Lotta de organizar um evento sobre divulgação artística, onde ele realizaria palestras sobre a Arte e o Movimento Modernista. O evento que somente aconteceu no ano de 1939, na casa de Portinari, decepcionou o mestre, que se aborreceu ao perceber o rumo equivocado das pessoas que ao participarem, estavam se alienando e deixando de lado o que era mais importante – A coisa virou conferência na A.B.I., grã-finagem pura. Não interessa.

Não logrando exito com o Ministro Capanema, Portinari, reúne novamente alguns de seus ex-alunos, entre eles, Lotta de Macedo Soares e aceita a execução de três grandes painéis para o Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York.  Os painéis chamam a atenção de Alfred Barr, diretor geral do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Portinari retorna ao Brasil com sua comitiva impressionado com uma obra que mudaria o seu estilo: “Guernica” de Pablo Picasso.

Em 1940, Alfred Barr compra a tela “Morro do Rio” e imediatamente a expõe no MoMA, ao lado de artistas consagrados mundialmente. O interesse geral pelo trabalho do artista brasileiro faz Barr preparar uma exposição individual para Portinari em plena Nova York. Portinari retorna com sua entourage a Nova York, participa de uma mostra de arte latino-americana no Riverside Museum, realiza exposição individual no Instituto de Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna, com grande sucesso de crítica, venda e público. Com o sucesso alcançado, em 1941 executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso, em Washington, com temas referentes à história latino-americana.

O ano é 1942 e Lotta está de volta ao Brasil após uma temporada de quase um ano em Nova York. Encantada com a forma que os americanos reformaram os processos de divulgação, educação e difusão das artes, através do sistema de museus itinerantes, capaz de levar as artes plásticas até o seio das multidões, organiza a Artistas Brasileiros Reunidos, movimento criado por ela para dar meios aos artistas de sobreviverem e viverem da sua arte, ao mesmo tempo de popularizar a arte exposta, com ideais vanguardistas do movimento modernista. Portinari assume a Coordenação Geral, contando com o Conselho Consultivo formado por Mário de Andrade, Aníbal Machado, Carlos Drummond de Andrade, José de Queiroz Lima, Prudente de Morais Neto, Gilberto Freyre, Rodrigo Melo Franco de Andrade e Adalgisa Nery Fontes.

(…) Os Artistas Brasileiros Reunidos dizem que realizarão uma exposição no “hall” do novo edifício da Central do Brasil. Milhares e milhares de pessoas, poderão vê-la, pessoas que necessitam de arte, alem da arte que lhes dão o rádio e o cinema ou as praias de banho. Poderão vê-la sem necessidade de mudar de roupa, enfarpelar-se para penetrar num recinto solene e cheio de salamaleques dos hotéis de luxo. Eis, portanto, uma ideia mãe, com licença da palavra. (Revista Diretrizes, 23/04/1942, p.21)

Hall do prédio da Estação Dom Pedro II – Central do Brasil – Rio de Janeiro

Outras duas coisas haveriam de influir no entusiasmo de Lotta em Nova York: o Museu de Arte Moderna – MoMA, orientado por Monroe Wheeler e o estímulo de Florence Horn. Ela não sabe quantas vezes visitou o museu. Visitava-o quase que diariamente. Viu as suas exposições, observou o cuidado e os processos de cuidadosa apresentação que a direção do museu dava às suas exibições.(…) Lotta sentiu a obra de considerável interesse educativo, no seio do povo, entre as crianças, entre os estudantes. obra que o Museu de Arte Moderna está realizando. Suas sucessivas exibições têm um caráter dinâmico e eficiente, e suas exposições circulantes, dirigidas pela senhora Elodie Courter, têm uma função poderosa para difundir a cultura em todo o país.(…)