Parque do Flamengo - Instituto Lotta

Parque do Flamengo

Quando Carlos Lacerda venceu as eleições para o Estado da Guanabara, em 1960, Lotta foi convidada para participar do governo realizando algo de que gostasse e com o qual pudesse contribuir. Ela escolheu construir um Parque a céu aberto, em um lugar destinado a ser um corredor para os automóveis. Seu objetivo era a criação de uma área de lazer para a população carioca tão carente de atividades ao ar livre. Neste sentido, ela insiste pela modificação do projeto original, que previa para aquela área a construção de oito pistas de automóveis. Ela quer que seja implantado ali um Parque para que as pessoas possam usufruir a vista, por sua localização privilegiada, ponto de confluência entre o Centro e a Zona Sul da cidade, facilitado pelo acesso de ônibus, carro, ou mesmo caminhando.

Lotta ficou tão entusiasmada com o projeto, que estava engavetado desde 1958, quando as terras provenientes do desmonte do Morro Santo Antônio foram lançadas naquela baia. Ao assumir o cargo nas obras do Parque, ela convidou o arquiteto Afonso Reidy para um final de semana em Samambaia, quando chegou, ele encontrou o projeto espalhado na sala de Lotta, não tinha como recusar o pedido dela.

No princípio, o governador para defender o Projeto do Parque apresentado por Lotta e Affonso Eduardo Reidy, precisou demitir o diretor de Urbanização da Sursan, que queria ao invés do Parque construir quatro avenidas com prédios a beira mar. Não houve argumento que o demovesse disso, nem mesmo quando lembrado do enorme engarrafamento que provocaria em Copacabana, quando as quatro vias desembocassem em apenas duas.

Em outubro de 61, já com Enaldo Cravo Peixoto na Presidência da Sursan, Lacerda atendendo pedido de Lotta assina o Decreto nº 607 criando junto a esse órgão um Grupo de Trabalho com as seguintes atribuições:

a) Orientar e projetar todas as obras arquitetônicas, paisagísticas e artísticas, a serem realizadas pela Sursan no aterrado Glória-Flamengo;
b) Supervisionar a urbanização e a composição paisagística da faixa do aterrado, na orla marítima Glória-Flamengo;
c) Opinar sobre a eventual aquisição e localização de qualquer obra de arte a essa área destinada.

O presidente do Grupo de Trabalho poderia também, quando necessário, requisitar servidores do Estado e/ou solicitar contratação de especialistas, através de indicação a Sursan.

O Grupo de Trabalho

Affonso Reidy e Lotta – 1963

Constituído por 7 membros, por força do decreto que o criou, o Grupo de Trabalho para a Urbanização do Aterrado Glória-Flamengo tinha como presidente Lotta de Macedo Soares, com liberdade plena para montá-lo.
Para sua formação inicial Lotta convocou:

• Affonso Eduardo Reidy e Jorge Machado Moreira (projeto arquitetônico)
• Berta Leitchic (engenharia)
• Ethel Bauzer Medeiros (recreação)
• Carlos Werneck de Carvalho, Sérgio Bernardes e Hélio Mamede (desenvolvimento de projetos)

 

Luiz Emygdio de Mello Filho, botânico, era diretor do Departamento de Parques e Jardins da Secretaria de Obras Públicas-GB. Hélio Modesto não era membro do grupo, propriamente, mas fazia importante ligação entre o grupo e o restante da administração estadual.

Além desses trabalharam no Grupo e/ou na Fundação Parque do Flamengo: Maria Augusta Leão da Costa Ribeiro (Magú), Flávio de Britto Pereira, Alexandre Wollner, Cláudio Marinho de A. Cavalcanti, Maria Hanna Siedlikowski, Maria Laura Osser, Gelse Paciello da Motta, Juan Derlis Scarpellini Ortega, Júlio César Pessolani Zavala, Sérgio Rodrigues e Silva, Mário Ferreira Sophia, Fernanda Abrantes Pinheiro e Swany Rodrigues e Silva.

O Grupo de Trabalho contou ainda com a contratação de serviço especializado da Roberto Burle Marx e Arquitetos Associados, do Laboratório de Estudos Marinhos de Lisboa e do lighting designer americano Richard Kelly.

Funcionários do Barracão em 1965:
Em pé da esquerda para a direita: Juan Delis Scarpellini Ortega (arquiteto), Júlio César Pessolani Zavala (arquiteto), Dona Lotta, Olívio (copeiro), Sérgio Rodrigues e Silva (arquiteto), Swany (secretária) e David (motorista do trenzinho). Agachados: Gelse Paciello da Motta (arquiteto), Marcílio Pereira (jardineiro) e Fernanda Noviz Oliveira (secretária).

Fernando Tábora e Júlio César Pessolani, arquitetos associados ao escritório Roberto Burle Marx, os meus meninos, como Lotta chamava-os, utilizaram da experiência do Parque Del Este, em Caracas, na Venezuela, para apresentarem uma proposta de circulação viária e um anteprojeto de programação do parque, além de muita argumentação para resolverem a primeira etapa da concepção do Parque do Flamengo, a aprovação pela Sursan da urbanização do aterrado Flamengo-Glória com apenas duas pistas de tráfego e uma grande área ajardinada.

Com essa etapa vencida, começou uma preocupação com  as questões associadas à vegetação e solos que ficaram a cargo de Luiz Emygdio de Mello Filho. Emygdio viajou em conjunto com os encarregados do desenho e elaboração dos jardins para Cuba, onde estiveram no Jardim Botânico de Cienfuegos, que tinha pertencido a Universidade de Harvard, onde receberam várias sementes e plantas, entre elas as famosas palmeiras Coryphas Toreanas, das folhas enormes, as Bombacáceas e as Bombax Ellipticum.

Grande relevância também é devida as plantas derivadas das expedições que Burle Marx fez ao Espirito Santo e ao interior do Rio de Janeiro.


Os jardins de acesso ao corpo baixo, o bloco escola, do Museu de Arte Moderna e os do terraço foram projetados por Roberto Burle Marx e Fernando Tábora, em 1956. Foi executado em 1961 como a primeira obra do Parque sob a coordenação de Lotta.

Com a decisão de se fazer um parque e duas pistas de tráfego no aterrado Flamengo-Glória aprovada pelo Departamento de Urbanização da Sursan, Lotta agora se voltava para a questão das obras de engenharia para dar continuidade ao aterramento, que nos meados de 1962, estavam pouco além da metade do necessário a realização do projeto de urbanização do Reidy. Lotta sugere a Sursan a contratação do Laboratório de Estudos Marinhos de Lisboa, que já tinha prestado serviços técnicos na obra da Praia de Copacabana, para o estudo hidrográfico necessário a continuidade do aterramento, enrocamentos ainda por fazer e a praia artificial do Flamengo.

Devemos lembrar que quando Carlos Lacerda assumiu o governo da Guanabara o morro de Santo Antônio já estava completamente arrasado e o aterramento do litoral dos bairros  do Flamengo e Glória ainda por se completar.

A solução foi lançar mão da areia do fundo da baia da Guanabara e da remoção de terra, pedras e entulhos dos túneis em construção.

A draga Ster foi dada como ferro-velho, depois de ter operado no canal do Panamá entre 1928 e 1952, comprada por uma firma brasileira, a máquina abriu, em 1959, canal no porto de Vitória e em 1962 foi a salvação encontrada por Lotta para a complementação do aterro.

O aterramento vai até o fim de 1963, presenteando a cidade com uma surpresa magnífica, a praia de botafogo.

Outra grande discussão e que causou muitos debates nos jornais por serem consideradas abusivas economicamente foram as soluções para a iluminação do Parque. Lotta recorreu a organismos internacionais para buscar os melhores profissionais da área, embora tenha havido vários debates entre os membros do Grupo de Trabalho para pensarem em soluções alternativas. A conclusão foi pelo nome de um especialista: Richard Kelly, e os postes de iluminação com 45 metros de altura! Parecia um disparate ter que importar lâmpadas e tecnologia para algo considerado tão simples: iluminar. Escreve ela ao Governador: Já chegamos a uma conclusão sobre os postes para iluminação do Aterro – Felizmente os mais baratos são os melhores – gostaria de mostrar a você.

Tratava-se da criação de um sistema que permitisse aos pedestres ver além: toda a orla da praia, o mar, o Pão-de-Açúcar e manter a segurança daqueles que quisessem caminhar a noite, ou jogar futebol no interior do Parque. Ela faz um resumo ao governador das cartas trocadas por ela com o Kelly e o encantamento dele com o projeto:

O homem é absolutamente fabuloso! Pode-se facilmente iluminar o Pão de Açúcar, garante efeito extraordinário. Está deslumbrado com o que poderia fazer no Flamengo. Vai ficar inacreditável e sublime Governador.
Tal obra não se realizou sem constantes brigas entre Lotta, membros do Grupo de Trabalho, a Sursan e outros órgãos públicos envolvidos no projeto, além de uma campanha contra as extravagâncias da Presidente do Grupo que exigia um gasto excessivo para a iluminação. As lâmpadas utilizadas nesse sistema são de mil watts, embora mais caras, foram exigidas por Richard Kelly, por apresentarem uma melhor qualidade de material, duram mais, iluminam mais, o que dá economia de postes, fios etc. Não havia no Brasil tecnologia para o empreendimento, por isso, as lâmpadas foram importadas. O que gerou uma grande polêmica, pois consideravam ser este um luxo desnecessário. O primeiro poste foi colocado com muita dificuldade, de acordo com o general Salvador Mandim, secretário de Serviços Públicos naquele momento:

A dificuldade para a colocação do primeiro poste foi de se encontrar o centro de gravidade exato, e a colocação do guindaste que levanta o poste, pois esse vai servir de modelo aos cinquenta e nove restantes. Os postes são os maiores do mundo, com quarenta e cinco metros de altura. Seu diâmetro é de 1.13 metros e pesa dezessete toneladas cada. Na sua parte superior serão colocadas, em forma de estrela, seis lâmpadas de mercúrio corrigido de mil watts cada uma. Dona Lotta considera importante que os primeiros pontos a serem iluminados devam ser a praia e os campos de futebol, para que o povo possa utilizá-los à noite, durante o verão.

A fim de preservar o projeto original do Parque que não previa construções, estátuas, ou qualquer obstrução à vista dos pedestres, Lotta estuda o projeto de criação da Fundação Parque do Flamengo, órgão que teria autonomia administrativa, previsto no processo de tombamento do Parque. Ela argumenta sobre a necessidade da Fundação, não como um requinte, ou perfeccionismo, mas como condição de que a obra ficaria pronta após 1965, o que justificaria os gastos vultosos do projeto:

É a garantia de que um projeto que foi planejado para funcionar como uma unidade não venha a se arruinar com o desmembramento dele. É a obrigação do Governo de garantir-lhe esta unidade, justificando os bilhões gastos nele, assegurando ao povo que o tempo das leviandades já passou, que as promessas feitas a ele são para valer.

A necessidade de um órgão exclusivo para o Parque foi discutida na Assembléia Legislativa do Estado da Guanabara. Lota não tinha leveza em suas palavras quando se tratava de defender os interesses do Parque. Ela se dirigia ao Governador de maneira direta e não ameniza seus sentimentos indignando-se e exigindo que ele atuasse. Enfatizava que os interesses em salvar o projeto e mantê-lo de acordo com as características previstas pelo Grupo eram de total competência dele, sendo ele o indicado a defendê-lo:

Não tem o menor cabimento, que eu passe estes últimos meses, negligenciando o meu trabalho, tentando angustiosamente, sem meios, tempo, e talento organizar um ‘movimento de opinião’ para salvar o Parque. Não tenha a ingenuidade de pensar que este bilhete, é para convencê-lo de mudar de ideia e entrar em acordo com a Assembléia por causa da Fundação – você não precisa de conselhos, porque faz isto muito bem, quando o caso lhe interessa.

É só para que você saiba que amizade não é sinônimo de burrice, e que o considero totalmente responsável pelo sucesso ou fracasso da lei sobre a Fundação, na Assembléia. A partir de setembro de 1965, durante a campanha eleitoral para a disputa do Governo da Guanabara, os problemas tomaram dimensões incalculáveis. Lota se desgastava física e emocionalmente, passava por um mau pedaço, observa Bishop. Havia muitas opiniões divergentes em relação às obras do Parque; alguns consideravam a obra desnecessária e custosa para o Governo e outros que apoiavam suas conclusões. Bishop comenta que acreditava que a Fundação seria aprovada, a não ser que os deputados estivessem completamente malucos. A resistência era maior do que o esperado e o projeto da Fundação na Assembléia foi derrotado, aumentando os desentendimentos e, conseqüentemente, a dedicação de Lotta às obras que chegava a trabalhar nesse período dezoito horas por dia.

Lotta, Carlos Lacerda, Enaldo Cravo Peixoto e Marcos Tamoio em visita as obras do Parque – 1963

Prevendo a possibilidade da derrota do seu candidato, o Governador Carlos Lacerda sancionou uma lei criando a Fundação à revelia das decisões tomadas pelos deputados na Assembléia. Não bastassem os problemas com a implantação da Fundação, nesse mesmo momento começam os conflitos entre Lota e o paisagista Roberto Burle-Marx por questões relacionadas às obras do Parque. Os jornais deram ampla cobertura aos argumentos do paisagista que indicava as atitudes de Lota na presidência do Grupo de Trabalho como autoritárias. Um mal entendido profissional entre duas personalidades da elite carioca que disputavam, provavelmente, os sucessos e os infortúnios relativos ao projeto do Aterro.

Lotta foi publicamente detratada, chamada de prepotente e autoritária por Burle-Marx. Com a vitória de Negrão de Lima, candidato da oposição, foi aprovado um projeto de lei que criava um órgão autônomo para administrar todos os parques e jardins da cidade. Após muitas discussões e Mandados de Segurança que tramitavam nos órgãos competentes, a Fundação do Parque do Flamengo foi definitivamente extinta e ficou a cargo da Sursan e mais tarde do Departamento de Parques e Jardins sua administração e conservação. Atualmente aos cuidados da IV Região Administrativa do município.

 

Ainda assim Lotta tentava manter os trabalhos e concluir as obras. Sua amiga Elsie Lessa comentou que ela andava com as pastas do Parque debaixo do braço como um bem precioso, o qual teimava em defender até o fim. Ela foi uma das últimas pessoas a estar em companhia de Lotta antes do seu embarque para Nova York em setembro de 1967:

Ficou umas três horas sentada ali naquela poltrona de couro, folheando a sua pasta sobre a Fundação daquele aterro dos seus sonhos, que lhe encheu de alegria e desgostos os últimos anos de vida. Comeu-lhe os nervos, degustou-lhe as energias físicas e psíquicas. Era a última coisa que queria fazer pelo seu “Aterro do Flamengo”, a Fundação que lhe garantisse a existência desimpedida dos entraves burocráticos, para que florescessem e frutificassem afinal todos os seus sonhos. Por duas vezes vi-a botar a mão diante do rosto e soluçar por ele nessa tarde. Acabara de entregar a grande pasta de recortes que acompanhara o processo de defesa da Fundação do Aterro, já em mãos do Supremo Tribunal Federal. E era, a última coisa que fazia por ele.

Ethel Bauzer Medeiros – 2013

A especialista em recreação Ethel Bauzer Medeiros, que trabalhou no projeto do Parque junto com Lota, afirmou que entre os objetivos da criação da Fundação do Parque estava o direcionamento das atividades a serem desenvolvidas nele. O projeto previa a contratação de profissionais especializados, pois ele não foi projetado para ser apenas um local para os frequentadores darem vazão às suas tensões acumuladas no dia-a-dia. Continua ela:

Seu propósito era mais amplo, qual seja, o de contribuir para melhorar a qualidade da vida atuando como fonte de educação permanente ou de educação continuada. Este objetivo não pode ser alcançado, pois a Fundação não conseguiu efetuar-se.

Carlos Lacerda da janela de seu apartamento no 13° andar do número 224 da Praia do Flamengo e o Parque que levaria no futuro o seu nome.

 

 

 

O Parque é obra de um grupo, sob a liderança de uma pessoa que defendeu esse Parque e o realizou com dedicação, lealdade e bravura. Apedrejá-la agora em vez de defender a criação de uma Fundação para defender o Parque, é uma indignidade. Governador Carlos Lacerda.

 

 

 

 

O Parque foi tombado como Patrimônio Histórico e Arquitetônico em 20 de abril de 1965 e inaugurado extraoficialmente por Lotta em 17 de outubro desse mesmo ano.

Placa em homenagem a Lotta – 1995

Pela Lei Municipal nº 1219/88 o Parque do Flamengo passou a ser oficialmente designado de Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, entre o Aeroporto Santos Dumont e o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, e de Parque Carlos Lacerda o trecho que vai do Monumento ao final dos jardins situados ao longo da Praia de Botafogo.

Trinta anos após sua inauguração em 1995, houve uma solenidade na qual foi prestada uma homenagem a Lotta, sua criadora, a qual teve seu pioneirismo resgatado por escritores, como

Mary Morse e Rachel de Queiroz – 1995

Rachel de Queiroz, políticos e amigos presentes, que instalaram uma placa no Teatro de Marionetes que ressalta que Lotta foi a idealizadora do Parque do Flamengo, e não o paisagista Roberto Burle Marx como pensa a maioria dos cariocas. Como representante de Lotta também foi homenageada Mary Morse, com a Medalha Pedro Ernesto, concedida pela Câmara Municipal.

 

 

Planta do Parque do Flamengo constante no processo de tombamento – 1965