Lotta - Instituto Lotta

Lotta

Maria Carlota Costallat de Macedo Soares

Nasceu em Paris, no dia 16 de março de 1910. Faleceu em Nova York, aos 57 anos, em 25 de setembro de 1967. Brasileira, cidadã do mundo, primeira filha de José Eduardo de Macedo Soares e Adélia de Carvalho Costallat de Macedo Soares, foi casada com Mary Stearns Morse e com a poetisa americana Elizabeth Bishop.

Por ocasião do nascimento de Lotta, José Eduardo servia baseado na Europa como Primeiro-Tenente da Marinha. Recém casado com Dona Adélia, irmã do famoso jornalista, o cronista carioca Benjamin Costallat e filha do General Costallat, tiveram ainda outra filha em Paris, Maria Elvira, conhecida por Marieta.

José Eduardo nasceu em São Gonçalo (RJ) no dia 4 de setembro de 1882, filho de José Eduardo de Macedo Soares, empresário, professor e político, e de Cândida Sodré de Macedo Soares. Sua família teve marcante influência na vida política e cultural do país, a começar por seu avô, Joaquim Mariano de Azevedo Soares, fazendeiro e expoente da aristocracia rural fluminense.

Seguiram-se seu tio, o conselheiro Antônio Joaquim de Macedo Soares, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de 1892 a 1905; seus irmãos José Carlos de Macedo Soares, deputado à Constituinte de 1934, ministro das Relações Exteriores de 1934 a 1937 e de 1955 a 1958, ministro da Justiça em 1937 e interventor federal em São Paulo de 1945 a 1947, José Roberto de Macedo Soares, embaixador no Uruguai entre 1945 e 1951, e José Cássio de Macedo Soares, deputado federal de 1935 a 1937; e seus primos Edmundo de Macedo Soares e Silva, ministro da Viação e Obras Públicas em 1946, governador do estado do Rio de Janeiro entre 1947 e 1951 e ministro da Indústria e Comércio em 1967, José Armando de Macedo Soares Afonseca, deputado à Constituinte de 1946, e Hélio de Macedo Soares e Silva, deputado federal entre 1951 e 1955.

José Eduardo deixou a armada em 1912, voltando ao Brasil com sua família, para fundar no Rio de Janeiro o jornal O Imparcial, precursor do Diário Carioca.

Com O Imparcial, José Eduardo, insuflava o pensamento crítico, desde a campanha civilista com os discursos inflamados de Rui Barbosa ao surto modernista do início dos anos 20 e a dura oposição ao governo de Epitácio Pessoa e suas fraudes.

No fim de 1915, José Eduardo, compra a Fazenda Samambaia, incluindo a Casa Grande, vinda de meados do século XVIII e demais benfeitorias. Lotta, aos 5 anos, chega onde o destino teria reservado o melhor para sua vida: Samambaia.

A vitória contumaz de Arthur Bernardes, fruto da “eleição a bico de pena”, do “voto de cabresto” e dos “currais eleitorais” envolvia o pleito em aura de suspeição, abalando a credibilidade e deflagrando a Revolta Tenentista em 05 de julho 1922, tendo como marco o episódio dos “Dezoito do Forte”.

Assumindo o governo em 15 de novembro de 1922, Arthur Bernardes, decreta estado de sítio no país, O Imparcial é fechado definitivamente, José Eduardo é preso em sua propriedade em Maricá e transferido com outros presos políticos para instalações na Ilha Rasa.

Com o auxílio de sua brilhante imaginação e de seu irmão José Roberto, José Eduardo consegue fugir do seu cárcere e do país, exilando-se com sua família na Europa.

Lotta, então com 13 anos, passou a frequentar um dos melhores colégios internos da Bélgica até os seus 18 anos, em 1928, quando voltou com a família ao Brasil.

Adélia Costallat e José Eduardo se separam em 1929, na partilha dos bens a Fazenda da Samambaia ficou para Dona Adélia.

Dois anos de governo de Getúlio Vargas bastaram para transformar o ídolo de José Eduardo em um ditador imperdoável. Na oposição mais uma vez o Diário Carioca é empastelado por forças getulistas.

Temendo por sua vida e pelo confisco de seus bens pelo governo, José Eduardo transfere todas as suas propriedades, incluindo as terras de Maricá, Saquarema e o próprio Diário Carioca, para Horácio de Carvalho Junior, por quem tinha grande afeto, admiração e confiança.
Horácio passa a ser o administrador dos negócios, enquanto José Eduardo se dedica ao jornalismo e a política, tornando-se Senador da República em 1934.

Lotta e Marieta com isso ficaram sem a herança oriunda da família Macedo Soares. Lotta não concordou com a transferência do controle dos bens para Horácio, ficando magoada com o pai, mas respeitando sua decisão. Marieta ao contrário, inconformada, lutou por toda a sua vida na justiça pela anulação da doação e cortou relações com Lotta por não acompanhá-la na empreitada.

Em 1935, Lotta entra para o curso de Pintura, ministrado por Cândido Portinari, na Universidade do Distrito Federal, dirigida por Mário de Andrade. Paralelamente se envolve na fundação de um partido político progressista, a União Democrática Nacional – UDN.

Viaja para Nova York na entourage de Portinari, em 1939, onde conhece Mary Morse, encanta-se por sua história de vida e determinação de independência.

Em 1940, Dona Adélia vende a Casa Grande de Samambaia e as terras circunjacentes para a Família Leite Garcia, reservando no entanto cerca de um milhão de metros quadrados da propriedade que foram transmitidos em partes iguais as suas filhas Lotta e Marieta. No ano seguinte Lotta resolve fixar residência em Nova York, com o objetivo de conhecer com maior profundidade o Museu de Arte Moderna daquela cidade. Lotta tinha ficado fascinada com as atividades de difusão cultural do Museu. A partir daí Lotta e Mary se aproximam cada vez mais. Mary como exímia empreendedora planejava a criação no Brasil da “Artistas Brasileiros Reunidos”, sonho de Lotta.

Começavam também a imaginar um condomínio requintado, a partir da doação de Dona Adélia, onde compartilhariam a vizinhança com pessoas cultas e modernas, fazendo daquele lugar um oásis para se morar.

Em 1941, ainda em Nova York, Mary apresenta para Lotta a escritora americana, sua amiga e conterrânea, Elizabeth Bishop, com a qual viveriam mais tarde um triângulo amoroso por muitos anos.

De volta ao Brasil, em 1942, Lotta e Mary já viviam uma nova realidade, uma nova família se formara.

A burocracia para a implementação do Empreendimento Imobiliário e o exílio de Portinari no Uruguai afasta Lotta temporariamente das Artes.

Quatro anos se passaram até que Lotta e Mary tivessem transformado o projeto do condomínio em realidade próspera.

Morando em Petrópolis, em Samambaia, na casa projetada por seu amigo arquiteto Carlos Leão, o Caloca, Lotta e Mary planejavam a construção de uma casa maior e definitiva, que pudessem recepcionar de modo mais acolhedor seus muitos, mas seletos amigos.

Livre, culta, rica, intelectual não-esquerdista com sofisticação européia e simpatia norte-americana, uma postura pessoal irreverente, amiga pessoal dos principais intelectuais brasileiros da época, Lotta se volta ao mundo das artes e em 1948 a “Artistas Brasileiros Reunidos” se concretiza com a fundação, junto com um grupo que incluía Eva Klabin e o empresário Raymundo Ottoni de Castro Maya, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, incentivada por seus amigos Lina Bo e Pietro Maria Bardi,  auxilia na constituição de seu acervo e, sobretudo, no contato com Happy e Nelson Rockfeller, fundamentais no processo inicial de criação do museu.

Nas estadias no apartamento 1101, uma cobertura do número 5, da Rua Antônio Vieira, no Leme, com decoração reminiscente da visita do amigo Alexander Calder ao Brasil, em 1948, elas faziam os contatos sociais necessários a divulgação do alto nível do empreendimento de samambaia e Lotta aproveitava para participar do desenrolar do registro como sociedade civil do Museu de Arte Moderna do Rio, que só veio a se realizar definitivamente em 1951.

Com as obras da casa concluídas em 1957, elas foram passar seis meses em Nova York. Na volta, nova sensação de Lotta de não estar fazendo nada, de não se dedicar a uma atividade que pudesse ser vista e valorizada. Queria mais, ousar em algo que ficasse marcado como seu, o qual pudesse aplicar seus conhecimentos e ser reconhecida.

No final de 1960, Carlos Lacerda, seu vizinho em Samambaia e amigo de longa data, venceu as eleições para o governo do recém criado Estado da Guanabara. Com a mudança da capital brasileira do Rio de Janeiro para Brasília, em abril de 1960. O novo Governador pede então à amiga que colabore com ele no Governo, que escolha uma atividade na qual usasse seus talentos que ele tanto admirava.

Depois de muito divagar, com a ajuda do apartamento do Governador. Uma área que vinha sendo aterrada pelo governo anterior, com o desmonte do Morro Santo Antônio, objetivando a dar continuidade á ligação da Avenida Norte-Sul – atual Avenida Chile – com a Radial Sul, que daria uma solução ao aumento constante do número de veículos na cidade.

Lotta, desconsiderando os estudos da Engenharia de Transito e a finalidade específica da criação da Sursan, com personalidade jurídica e autonomia financeira, como estabelecia a Lei nº 899, de 28/11/1957, fez daquela enorme área o primeiro parque de lazer ativo da América Latina.

O Parque do Flamengo foi inaugurado por sua idealizadora em 17 de outubro de 1965.

Casa principal da Fazenda Samambaia

A Casa Grande da Fazenda Samambaia, parada obrigatória de tropeiros no caminho do ouro no século XVIII, foi restaurada em 1942 pelo arquiteto Wladimir Alves de Souza e atualmente é sede do Instituto Samambaia de Ciência Ambiental – ISCA e sede social do Instituto Lotta.