Elizabeth Bishop - Instituto Lotta

Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop - Anos 40

Elizabeth Bishop, filha única, nasceu em Worcester, Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911. Depois que seu pai, um construtor de sucesso, morreu quando ela tinha oito meses de idade, a mãe de Bishop ficou mentalmente doente, sendo internada definitivamente em uma instituição para doentes mentais a partir de 1916. Efetivamente órfã durante a sua infância, passou a morar com os avós maternos em uma fazenda em Great Village, Nova Scotia, no Canadá. Ali a menina passou pouco mais de um ano, tornou-se uma exímia pescadora, aprendeu a gostar da natureza e começou a tentar ser feliz pela primeira vez.  No fim de 1917, os avós paternos ganham a guarda de Bishop na justiça e ela é removida do cuidado de seus avós maternos e levada  de volta para Worcester. Bishop contrariada foi infeliz ali, sua separação de seus avós maternos a fez sozinha. Enquanto ela estava vivendo em Worcester, desenvolveu asma crônica, que a fez sofrer para o resto da vida.  Em 1918, seus avós paternos, percebendo que ela estava vivendo infeliz com eles, enviou Bishop para viver com a irmã mais velha de sua mãe, Maud Boomer Shepherdson, e seu marido, George. Os Bishops, de família rica, pagavam a Maud para abrigar e educar a sua neta. Os Shepherdsons viviam em um cortiço de um bairro pobre de imigrantes italianos e irlandeses em Revere, Massachusetts.

Com a ajuda financeira para criar a sobrinha a família se mudou para melhores circunstâncias em Cliftondale, Massachusetts. Foi a tia Bishop que lhe apresentou as obras de poetas victorianos, incluindo Alfred, Lord Tennyson, Thomas Carlyle, Robert Browning, e Elizabeth Barrett Browning.

Bishop era muito doente quando criança e como resultado recebeu muito pouca escolaridade formal. Ela frequentou a Saugus High School em seu primeiro ano do ensino médio. O segundo na North Shore Country Day School em Swampscott, Massachusetts. No ano seguinte entrou para a Walnut Hill School, em Natick, Massachusetts, onde estudou música. Na escola seus primeiros poemas foram publicados por seu amigo Frani Blough em uma revista estudantil. Em seguida, ela entrou para a Vassar College, no outono de 1929, pouco antes da queda da bolsa de Nova York, com a intenção de ser uma compositora. Ela desistiu da música por causa de um terror de desempenho e mudou para cursos de literatura do século 16 e 17 e romance. Bishop publicou seu trabalho de final de curso na revista The Magazine (com sede na Califórnia)  e em 1933, co-fundou uma revista literária rebelde em Vassar chamada Con Spirito, com o escritor Mary McCarthy (um ano mais velho que ela), Margaret Miller, e as irmãs Eunice e Eleanor Clark. Bishop se formou em 1934, mesmo ano em que morria sua mãe na instituição onde permaneceu sempre longe do contato da filha.

Bishop foi muito influenciada pela poeta Marianne Moore, a quem ela foi apresentada por um bibliotecário em Vassar, em 1934. Moore teve um grande interesse na obra de Bishop, se encantando ao ponto de dissuadir Bishop de entrar para a Cornell Medical School, onde a poeta tinha brevemente se inscrito depois de se mudar para Nova York, logo após a sua formatura em Vassar. Levou quatro anos para que Bishop dirigi-se a amiga como “Querida Marianne” e não “Querida Sra. Moore”, mesmo assim por insistência de Marianne. A amizade entre essas duas mulheres foi memorializada por uma extensa e rica correspondência.


Bishop, no início da idade adulta, teve uma independência
financeira oriunda da herança de seu pai que enfim pode usufruir. Com esta herança, Bishop foi capaz de viajar muito sem se preocupar com emprego e viveu em muitas cidades e países que são descritos em seus poemas. Ela viveu na França por vários anos, em meados da década de 1930, com a companheira que conhecera em Vassar, Louise Crane, que era herdeira de uma grande indústria de fabricação de papel. Em 1938, Bishop comprou uma casa em Key West, Flórida. Ali conheceu Pauline Pfeiffer Hemingway, que havia se divorciado de Ernest Hemingway em 1940.
Em 1946, Marianne Moore sugeriu Bishop para o Prêmio de Poesia Houghton Mifflin, o qual ela ganhou entre 800 candidatos. Seu primeiro livro, North & South, foi publicado em 1000 cópias. O livro levou o crítico literário Randall Jarrell a escrever que “todos os seus poemas escrito embaixo, ‘Eu já vi isso'”, referindo-se ao talento de Bishop para a descrição vívida.

Em 1947 ela foi apresentada a Robert Lowell pelas mãos de Randall Jarrell tornando-se grandes amigos e influenciando um na obra do outro. De 1949 a 1950, ela foi  Consultora em Poesia para a Biblioteca do Congresso, e viveu em Washington, DC, em Georgetown.

Ao receber uma bolsa de 2.500 dólares para subsídio de viagem do Bryn Mawr College, em 1951, Bishop parte para circunavegar a América do Sul de navio.

Após 18 dias navegando, Bishop, finalmente chega ao porto de Santos. Calor, muito calor. Para esperar a data da continuação da viagem em outro navio, tinha combinado por carta fazer uma visita de alguns dias a suas amigas Mary e Lotta no Rio de Janeiro. Com um mapa detalhado feito por Lotta ela se debatia para tentar buscar informações de como segui-lo até a Rua Gustavo Sampaio.

Em 30 de novembro de 1951, Bishop chega ao apartamento de Lotta e Mary no Leme, uma cobertura, de frente para a Avenida Atlântica. A decoração de Alexander Calder e cadeiras desenhadas por Lotta deslumbraram a recém chegada escritora americana.

Bishop passou o fim de semana no apartamento entre encantamentos e angustias até Lotta vir buscá-la na segunda-feira para conhecer Samambaia. A bordo de um belo Jaguar de cor vermelha, conduzido por uma exímia motorista, piloto de corrida, rapidamente chegaram em Petrópolis.

A emoção sentida por Bishop ao chegar a aquele lugar certamente foi semelhante ao descrito por Zuleika Borges Torrealba em suas reminiscências poéticas:

“As gotas de orvalho refletem os fragmentos da mata cerrada. Uma cor de esmeralda, a mais verde desse mundo. Nada além da imensidão daquele mar de ardósia e seus relevos, ondas que batem na pedra e explodem em espuma sôfrega. Um perfume de orquídeas derretidas como em um quadro de Dalí. O mar é uma floresta que cerca desejos abissais. Mas, com determinação, você segue, sempre na mesma direção. E no fundo do oceano improvável, avança em passo firme no piso ora árido, ora úmido, em meio a gigantescos arbóreos. Ávida pelo mergulho no mar lúdico da serra, exalando a fragrância do eucalipto e com um surpreendente gosto de nêspera salpicada de flor de sal, salta de um trapézio nas nuvens. Deixa o corpo se levar, e o sol inclemente daquela altitude pincelar de bronze a face. Bem lá no fim do percurso, o acaso e o milagre cumprem o prometido. É o ponto de chegada. Com um meneio do rosto você vislumbra o remanso da sua vida: a casa da Lotta, a Fazenda Samambaia, seu nome corrente e de registro em cartório.”

Lotta, sua anfitriã, a conduziu pelas obras da casa de Samambaia em construção e, com a desenvoltura de alguém que conhecia as medidas exatas explicava os projetos ainda por serem construídos, com a criatividade de uma especialista em artes, descrevia os vários planos da obra. Bishop ficou imediatamente fascinada, principalmente com as mãos lindas de Lotta que gesticulavam enquanto falava, com a inteligência daquela criatura tão cheia de energia.

“O que tem de fauna e flora aqui parece um sonho. Chega a ser difícil de acreditar. Além de uma profusão de montanhas nada práticas, e nuvens que entram e saem pela janela do quarto…”Elizabeth Bishop

Nos primeiros dias no alto da serra, Bishop deu duas mordidas muito azedas em um caju e a fruta tropical provocou-lhe uma terrível alergia. Os cuidados que os brasileiros tiveram com ela, a atenção de Lotta à sua saúde, levando-a ao Rio de Janeiro para ser medicada, fizeram com que imediatamente se afeiçoasse aos amigos, aos funcionários da casa e, sobretudo, aos carinhos da atenciosa anfitriã. Entre comprimidos e injeções, rosto inchado, orelhas vermelhas e doloridas, ataques de asma, alergia por todo o corpo, ocorre a declaração de amor. Lotta lhe prometera certos cuidados que ela jamais conhecera: construir um estúdio próximo da casa para ela se dedicar à sua poesia; carinho e segurança, o que a levou a dizer aos seus correspondentes: Foi a primeira vez que alguém me ofereceu um lar, tanta coisa. O gesto de Lotta para mim representou absolutamente tudo.

Lotta pediu para que Bishop ficasse no Brasil em 20 de dezembro de 1951, data que estava marcada no anel que ambas usavam.

“O estúdio está quase pronto, e estou tão emocionada que sonho com ele toda noite […] Garanto que vou entrar nele e ficar chorando de felicidade semanas a fio, sem conseguir escrever nada.” Elizabeth Bishop

Eu e Lotta ficamos empolgadíssimas – com o anúncio de dois MGs – fomos ao Rio e comprei um deles. Um MG 1952, muito pouco usado, preto, forrado com couro vermelho – só dois lugares.[..] Tive minha primeira aula ontem e foi só então que comecei a sentir que o carro era meu, e limpei a tampa do radiador com um lenço de papel etc. Meu conto que vai sair na New Yorker – tratava-se do conto autobiográfico “Na aldeia” – vai dar certinho para o preço.

O estúdio foi construído de maneira que ela pudesse se dedicar com tranqüilidade à sua poesia. Em um cômodo único no alto de uma pedra, à esquerda da casa, com uma cascata ao lado. Localizava-se em um terreno enorme e muito íngreme, pontilhado de granito, do qual se descortinava uma bela vista dos picos do outro lado do vale. No seu interior, a vista era bloqueada por uma parede, para garantir a concentração no trabalho.

A construção visava preservar o processo criativo, de forma que as visitas da casa e suas atividades ficavam distantes geograficamente, para não incomodar a concentração da escritora.
As descrições desse lugar, aliadas às transformações na sua escrita, parecem fundamentais, à medida que, em menos de um ano no país, ela escreve uma série de contos autobiográficos e inicia alguns poemas, como Banho de Xampu, considerado uma ode ao idílio amoroso, uma homenagem à amada Lotta, um dos momentos mais altos da sua arte.

“Este lugar é maravilhoso, Pearl. Eu gasto tempo demais olhando para ele em vez de trabalhar. Só espero que você não tenha que chegar  aos 42 para se sentir verdadeiramente em casa.” Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop, poetisa americana, considerada uma das mais importantes do século XX a escrever na língua inglesa. Foi a vencedora do Prêmio Pulitzer na categoria Poesia no ano de 1956 e em 1976 foi a primeira mulher a receber o prêmio internacional Neustadt de Literatura, única americana a recebê-lo.

Foi casada com Lotta de Macedo Soares e Mary Morse de 1951 à 1967.