Obra - Instituto Lotta

Obra

Livre, culta, rica, intelectual não-esquerdista com sofisticação européia e simpatia norte-americana, dona de uma postura pessoal irreverente, amiga pessoal dos principais intelectuais e políticos brasileiros da sua época, Lotta se especializou em liderar o back office de grandes empreitadas, elaborando estratégias e influenciando decisões.

Envolvida com todos, de Nelson Rockfeller, nos Estados Unidos, aos donos dos jornais mais vendidos do Brasil, na política tinha acesso diário ao pai José Eduardo, senador, ao tio José Carlos, embaixador e ministro, ao tio José Roberto, embaixador e ministro, ao tio José Cássio, deputado federal, ao primo Edmundo, governador do Estado do Rio. Frequentava a casa de Afonso Arinos de Melo Franco, onde se tornou amiga próxima de seu sobrinho Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Além de construir um condomínio de luxo em Samambaia, no município de Petrópolis-RJ, Lotta teve sua vida profissional voltada principalmente a dois grandes projetos: o de fazer artistas brasileiros viver de sua arte; e a construção de um parque de lazer ativo de padrão internacional.

Regressando aos Estados Unidos em companhia à Cândido Portinari, em 1941, conhece os projetos de Florence Horn, passando a construir em si um ideal vanguardista de popularização da Arte no Brasil, sendo ela produzida por artistas de renome ou não, mas brasileiros. Ela vislumbra o artista vivendo se sua própria arte, tendo um museu brasileiro para apoiar e expor seus trabalhos.

Lotta resolve fixar residência por algum tem em Nova York para melhor conhecer os processos do Museu de Arte Moderna daquela cidade, o MoMA. Com frequentes visitas, quase que diárias, Lotta, acaba por conhecer toda equipe de trabalho do museu, tendo inclusive a Diretora de Exposições Itinerantes, Elodie Osborn, ficado sua amiga. Com ela, resolveu organizar uma exposição de artistas brasileiros conjuntamente com este setor, que iria circular por todo os Estados Unidos. Em carta à Mário de Andrade, recorre ao amigo para lhe ajudar com sugestões e ideias, bastante entusiasmada com oprojeto; pede então a ele a lista dos artistas brasileiros que fizeram em conjunto quando estavam articulando a montagem de um Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro.

“Eu falei naquela lista que um dia nós fizemos, de artistas brasileiros (pintores, escultores, arquitetos), quando pensávamos fundar o nosso Museu. Você sabe que estou cavando aqui, estudar organização de Museu e depois o negócio está muito bem encaminhado. O que é que você acha? Escreva-me para o Brazilian Consulate 10 Rockfeller Plaza, Nova York, me ajudando com o seu coração e o seu crânio.” (Lotta de Macedo Soares em carta à Mário de Andrade, 03 de setembro de 1941)

Em outra carta ao amigo Mário de Andrade (1942), ela confidencia “que deixou muitas coisas engatilhadas para a montagem de um museu” e que quando chegou ao Brasil ficou sabendo “que o Pintor Misha Reznikoff tinha mandando a filha da pintora Maria Martins de avião para descobrir com Nelson Rockfeller um MAM no Rio de Janeiro”. Ela sugeriu nesta mesma carta que o amigo Mário fosse seu detetive para sondar com Misha sobre suas intenções e interesses.

Esse projeto fez com que ela desse uma entrevista ao Jornal Diário de Notícias, contando o que seria necessário fazer para que uma mostra de artistas brasileiros no MoMA acontecesse. Com toda esta visibilidade,  “Misha a havia oferecido a direção e a organização aqui no Brasil enquanto ele dirigiria a exposição itinerante nos Estados Unidos”.

Os anos avançam e as articulações políticas e negociações entre as elites cariocas para a criação de um museu de arte no Rio continuam. Lotta incansável em seu propósito mantém-se à frente das conversas e da organização da Artistas Brasileiros Reunidos. Ela articula com Raymundo Ottoni de Castro Maya, Niomar Muniz Sodré e Nelson Rockfeller a criação efetiva e real deste museu, com uma exposição inaugural de obras doadas pelos artistas e o fomento pela iniciativa privada para a manutenção dos custos do mesmo. Lotta visava aproveitar um Programa Internacional do MoMA voltado exclusivamente para as relações entre o museu e seus congêneres no exterior.

Enquanto estudante em um colégio da França teve a oportunidade de se encantar com uma apresentação do Cirque Calder. Isso ficou gravado em sua memória juvenil. Em 1940, quando estava em Nova York pela primeira vez com Portinari, encantada com a popularização da arte, foi apresentada aos “móbiles” de Alexander Calder. Foi amor a primeira vista, ou a segunda vista, pois algo lá de quando era mais jovem trazia-lhe recordações. Lotta apaixonou-se pelo trabalho de Calder tornando-se amiga do escultor. Alexander Calder quando em sua primeira visita ao Brasil, em 1948, hospedou-se no apartamento dela no Leme.

A primeira menção ao Museu de Arte Moderna do Rio foi com uma das agências organizadoras de uma exposição de Alexander Calder no Ministério da Educação em 1948. O que havia neste grupo de pessoas reunidas era o interesse em Arte Moderna, que não discriminava as vanguardas artísticas. Na liderança do grupo estava o empresário carioca Raymundo de Castro Maya que investia em obras de arte e outros nomes como Rodrigo Melo Franco de Andrade, Niomar Moniz Sodré e Roberto Marinho.

Através do encaminhamento das negociações, percebeu-se que a ideia de Lotta foi sendo deturpada. O tão sonhado MAM que ela propusera ser um espaço publico aberto, respaldado pela política publica cultural ao invés de um espaço para uma minoria elitista excludente. Por esses motivos não se percebe o nome de Lotta nas Atas de Fundação do MAM; ela não concordara com os termos apresentados pelos fundadores. O projeto das exposições itinerantes do MoMA que ela havia proposto ao amigo Mário de Andrade (já falecido nesta época) em suas cartas deveria ser patrocinado pelo museu e que seu objetivo principal era dar visibilidade a produção artística brasileira.

O MAM Rio foi fundado em 3 de maio de 1948, tendo sua primeira exposição sido realizada na sede do Banco Boa Vista (projetado por Oscar Niemeyer, no Centro da Capital Federal, Praça Pio X nº 118 – Candelária) em 1949. O museu se estabeleceu provisoriamente no edifício do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Capanema, pois a área destinada à instalação definitiva do museu fazia parte de um programa de urbanização projetado por Affonso Eduardo Reidy (um grande amigo de Lotta) que incluía o aterrado Glória-Flamengo. Ele iniciou o anteprojeto da arquitetura em 1952 e terminou o projeto em 1953, ficando os jardins a cargo do escritório de Roberto Burle Marx.

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro existe hoje graças a um grupo de vanguardistas que se associaram por um ideal. Lutando, falando, convencendo, suplicando a cada etapa, buscaram suplantar cada obstáculo. Lotta teve papel importante na formatação do ideal, na busca dos insumos necessários e sobre tudo no tombamento do edifício sede em conjunto com o Parque do Flamengo em 1965.

Um dia, no mês de dezembro de 1960, Carlos Lacerda que era seu amigo, companheiro de lutas na UDN – União Democrática Nacional – e vizinho em Samambaia, assumiu o governo da Guanabara. Estavam os dois, nos dias da posse, olhando para o mar de uma janela do Flamengo, quando o governador perguntou a Lotta em que ela o queria ajudar. Lotta estendeu a mão para o aterro da Glória, massa informe de lixo, terra, caliça, capim, pedregulhos avançando de mar adentro: – Me deixe fazer disso aí um Parque.

E foi assim que começou esse marco tão importante da vida de Lotta de Macedo Soares e da cidade do Rio de Janeiro. Reuniu Lotta em torno de si o que havia de melhor no país para constituir a sua equipe – basta dizer que a parte de arquitetura foi confiada a Affonso Eduardo Reidy, os jardins a Roberto Burle Marx. Com uma paixão de que mesmo seus velhos amigos, não a supunha capaz, ela se entregou dia e noite, domingo e dia santo, às obras do Aterro. A castelã da Samambaia, a diletante, desapareceu de todo: ficou a Chefe do Grupo de Trabalho para a Urbanização do Aterrado Glória-Flamengo. Com uma autoridade, uma segurança, um bom gosto inigualáveis, foi tirando do sujo aterrado uma imagem de beleza. Sabia de tudo, fiscalizava tudo, previa tudo. Ah, a alegria com que estudava as maquetes de Reidy, exibindo-as aos amigos como obras de arte – e eram obras de arte. Mostrava a todos, como um brinquedo engenhoso, o pequeno elevador de mudar as lâmpadas dos postes altos, corria mostrando a cidade miniatura das crianças, subia ao alto das passarelas, sabia de cada pedra, cada palmeira, cada metro de grama. Como sonhava com a enseada de iatismo – que afinal não viu realizada; o entusiasmo com que promoveu as tardes de aeromodelismo, as regatas de modelismo naval, o primeiro campeonato de peladas; a felicidade que lhe davam as invasões dominicais no parque, ainda longe de estar concluído.

Foi esse o período mais feliz da vida de Lotta, a sua fase criadora – e que resultou nesse milhão de metros quadrados de jardins e nesse perfeito conjunto de obras de arte que é o Parque do Flamengo.

Mas depois mudou a Política – e Lotta viu de repente que aquela obra da sua vida, que se virara em sua carne e seu sangue, pouco a pouco, num processo lento, mas inexorável, lhe era tirada, esvaziada, desfigurada. Lutou, – ela sempre foi uma lutadora. Desesperou-se às vezes. Exasperou-se quase diariamente. Por fim adoeceu – acabou morrendo. E só não se pode dizer que ela morreu de desgosto, porque nunca se rendeu e até morrer ainda lutava.

 

“O Parque do Flamengo foi projetado de maneira ambiciosa. Nobre ambição, ato de amor, tentar melhorar as condições de habitabilidade de uma cidade, criando um parque novo, organismo vivo, feito para o homem e na medida dele”. (Lotta de Macedo Soares)