Casa Mariana - Instituto Lotta

Casa Mariana

… Vim passar uns dias aqui em Ouro Preto e acabei comprando uma casa. Não era essa a minha intenção. Eu e Lotta sempre tivemos vontade de comprar uma casa velha no litoral, para restaurar, mas nunca conseguimos encontrar nada, e quando descobri que esta casa aqui estava à venda – e havia a possibilidade de que fosse comprada por um homem rico, dono de minas, que a Lilli [a dinamarquesa Lilli Ebba Henriette Correia de Araújo (1907-2006), casada com o pintor Pedro Correia de Araújo (1881-1953), amigos de Lotta] não queria de jeito nenhum ter como vizinho, e de quem o presidente do Patrimônio também não gostava muito – resolvi comprar. Talvez você não se lembre da casa – fica próxima à casa da Lilli, mais perto da cidade, à esquerda – um telhado bem comprido, inclinado, que parece um dragão ou um iguana. Fica bem à beira da estrada e a vista é igual à que se tem da casa da Lilli, só que um pouco mais de baixo. Mas acho que o que realmente me conquistou foi que junto com a casa vêm dois terrenos grandes ao lado, cercados por muros bem altos – perfeito para um jardim. Num deles tem água corrente, do outro tem um riacho, palmeiras, árvores frutíferas de todos os tipos.

A Lotta acha que estou meio maluca, mas está interessada – e a gente sempre quis ter uma casa velha além de uma moderna.

(Elizabeth Bishop, carta a Ashley Brown em 2 de setembro de 1965)

A Lotta está na nossa velha casa, medindo o jardim – vamos fazer um jardim enorme, murado. Para mim, a casa já está lindíssima, embora ainda haja muita coisa a fazer e meu dinheiro tenha acabado, pelo menos por ora. Preciso ganhar mais dinheiro depressa, e espero conseguir trabalhar bastante nessa viagem que vou fazer. A Lotta volta para o Rio e eu parto para o rio São Francisco dentro de dois dias. Acho que ela está melhorando gradualmente, mas ainda falta muito para voltar ao normal. Ela acorda chorando todos os dias, tem momentos de muita depressão e extrema irritação – mas assim mesmo acho que melhorou bastante. Acho que esta mudança foi boa para Lotta, e pelo menos os detalhes da minha casa e do jardim são uma distração para ela.

Vou deixar o jardim a cargo da Lotta. Mas é quase impossível para mim trabalhar no Rio no momento. Aliás, os dois médicos me disseram para vir para cá sozinha – mas como ela queria muito vir aqui resolvi trazê-la. Estou me sentindo muito melhor, tanto que já consigo suportar os problemas dela bem melhor que há algum tempo. Aqui está fazendo um tempo maravilhoso – frio e ensolarado, e à noite tem lua cheia -, além disso há aqui umas pessoas agradáveis que não tem nenhuma ligação com os problemas da Lotta no Rio, o que é ótimo para ela.

A casa foi uma extravagância um tanto impensada, ao que parece – mas do jeito que os trabalhadores estão fazendo a reforma ela vai ficar em forma por mais uns três séculos! Tem um velho bem velhinho sentado no chão trançando lascas finas de bambu para refazer o teto – é como trabalho de cesteiro – depois tudo é pintado de branco – exatamente como se fazia no século XVIII. É difícil achar artesãos para fazer estas coisas direito – mas a Lilli tem me ajudado muito em tudo, e eu não poderia ter feito o que fiz sem ela.

(Elizabeth Bishop, carta a doutora Anny Baumann, em 26 de maio de 1967)